Ana Karina Luna

Ana Karina Luna

Maceió, AL (1973)

BIO

Escritora, poeta, artista visual e oraculista (estudo do tarô terapêutico & astrologia profunda). Arquiteta e urbanista de formação, especialista em design gráfico e produção de ilustração nos EUA, e formada em terapia de vanguarda (Gestalt Viva). Durante os 17 anos vividos em Seattle (EUA), fundou e conduziu a tipografia Miss Cline Press (2008-2015), onde produziu poemas e gravuras em prensas de ferro centenárias (como as de Gutemberg), e foi mentorada pela poeta e escritora-em-residência Kary Wayson na Hugo House (Seattle, EUA). Voltou ao Brasil em 2014 e, três anos depois, fundou a Lua Negra Cartonera, editora independente de livros artesanais, pela qual publica seus livros. Em 2017, realizou o Laboratório Sesc de criação e expressão literária com foco na criação autoral de ficção com o Prof. Dr. Nilton Resende. Em 2019, fez uma vivência oracular visual-literária na abertura da sua exposição solo O Corpo é um poema fatiado, no Café da Linda (Teatro Deodoro). Em 2021, criou o Oráculo da poesia, composto de 100 fragmentos de poemas dos seus livros, e o performou na Printa-feira (SP). Em 2022, realizou a performance interativa O Oráculo das Mulheres Cósmicas, na exposição Portal, usando quatro obras suas expostas na Galeria Gamma. Em 2023, fez quatro performances interativas do Oráculo da poesia na exposição Reencontro, em frente a sua obra Vazio na quarentena, no Complexo Cultural Teatro Deodoro. Em 2024, recebeu o Prêmio Ladislau Neto e o Prêmio Multilinguagens por seu trabalho como editora independente da editora Lua Negra Cartonera, desenvolvido em Maceió. Seu projeto O oráculo da poesia foi contemplado no mesmo ano.

ESCRITOS

POESIA 

Ohmen – chapbook (primeiro livro, edição bilíngue); 

port/ing (2014); 

Saindo da piscina de éter – poemas ilustrados (2017); 

Maluquete quer dançar – poemas & geometrias (2019); 

Um livro-duplo: Uma mulher dilacera o patriarcado – Poemas de Vingança/ Adágios de uma escrava – Poemas de pena (2022). 

NOVELA

Mário (& Rosina) – uma novela (2020). 

ROMANCE

O mergulho – um drama de fantasia (2023).

POEMA DO LIVRO Maluquete Quer Dançar – Poemas & Geometrias (Poemas adultos de uma criança interior liberta):

Entramos no mar.

Maluquete se dá conta de que o mar está de pé.

Como é fundo.

Eu acho... não!: eu vejo... escorpiões

nadando ao nosso redor.

Escorpiões ou estrelas?

Ah = estrelas no espelho do céu!

Maluquete vem e se agarra,

pendura-se, e diz que não dá pé —

mas é tarde, uma estrela caiu

e há no meu braço, já, um escorpião

tatuado.

Afinal, na nossa direção,

uma água turvo-índigo, vinda do crepúsculo,

rajada de partes ainda puras,

como os azuis claros na henna indiana,

como saias duplas

de pedrarias turquesa —

imensa e tortuosa, ali a meio-mar,

cresce, a nossa imaginação.

TRECHO EXTRAÍDO DA NOVELA O Mergulho – Um drama de fantasia:

Gargalho também e na gargalhada ouço a voz de Elinda, voz de mulher antiga, uma voz que vinha ora do Egito, ora da Suméria, ora de dentro de um templo de pedra:

— Ahah, o aaamor nasce da mooorte, ahahah, o aaamor nasce da mmmmorte? ahahah ahahah.

Todos desabaram a rir, até Mara. Muriel, muito solto, muito leve, cai da cadeira, ahahah; rio-me mais ainda disso e penso: “Estou lascado, essa é a minha equipe? Este é o bando espiritual que me acompanhará em breve?”

Sinto-me um pouco zarolho. Não sei mais do que rimos, muito menos me acho equipado no mínimo que seja a fazer qualquer escolha para uma futura existência. Talvez me ache aqui rindo porque isso disfarça meu profundo desconhecimento de tudo e balsamiza a mim e à minha ignorância com águas de risada, tira-me um pouco do deletério... onde me encontro neste momento tão complicado. Escolher não é piada.

Carlos, parando um pouco, a boca entronchada para um lado e olhando-me com ar até galante, no entanto, profundo e meio... até meio trevas..., sei lá o que é isso nele, e aí ele me diz: “E então?” Suspendo os ombros, perdido. Olho para os outros. Continuam rindo e parando ao mesmo tempo, olham o Carlos e com os olhares apontavam a última mandala na mesa, a de número Quatro. 

Estou mais perdido do que átomo gerado em laboratório; não sei o que pedem de mim... Passa-se um minuto e aí (sim!) percebo só uma mandala flutuando na mesa. Que visão heroica: nem comecei este feito ainda e isso aqui tudo já me parece uma vida inteira; penetrar cinco vidas assim, do nada, como uma cigana de rua; do nada espreitar as fábulas de desdobramentos enormes que virão a ser, e ainda assim, é apenas a vida de uma única alma. 

Suponho-me no topo de alguma coisa, eu sei que subi qualquer coisa. O quê? Carlos diz: “Claro que subiu, você iniciou o processo de escolha, não é algo, isso?” Arregalo os olhos para o lado dele. Leitor de mente dos infernos! 

Finalmente, inspiro com força, e cheio de uma falsa coragem, pergunto: “Sobre o que é a Mandala Quatro?”

Muriel para de rir e saltita com os braços abertos, fazendo mesuras com as mãos como se estivesse invadindo um picadeiro, e apenas esperando este momento: “Lhe conviria passar pela experiência de se realizar? Você gostaria de talvez ser... um rei?”

Porém, as luzes apagam. Novamente.