Ari Denisson

Ari Denisson

Maceió, AL (1985)

BIO
Professor, poeta e ator. É doutor em Estudos Literários pela Ufal, ator com formação técnica em Arte Dramática pela Escola Técnica de Artes da Ufal. Professor de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas (Ifal). Participou da coletânea de contos Inferno tropical (2018), da coletânea de poemas QUEBRA: poesia negra contemporânea mcz (2021) e da revista Febre do Rato (2021).
ESCRITOS

POESIA

baroque.doc (2011).

CONTO

Contos periféricos (2016).


DE BAROQUE.DOC (Edufal, 2011): plano de saúde

17/12/2008

Amei-te tanto que manter não pude

O funcionamento pleno e ordeiro

Do meu corpo e da mente; então, ligeiro,

Corri atrás de um plano de saúde.

Complexidade digna de talmude

Acho ao contrato em olho passageiro

Ao passo que, de modo esperto, arteiro

E persuasivo, o corretor me ilude.

Assino-o. Esperançoso, espero o fim

Das carências. E, um dia, quando vim

Ao hospital por encontrar-me doente

De amar-te, o plano me ajudar não vi:

Meu tratamento ele não quis cobrir

Pois esse amor era preexistente.

DE CONTOS PERIFÉRICOS (Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2016) Conto 10

Enquanto esperava chegar o ônibus, Wedla contemplava o olhar distante dos pacientes do Caps da Chã de Bebedouro. Uma delas segurava as grades da porta como quem gostaria de estar do lado de fora, mas que não iria arrombar a porta nem simplesmente puxar o ferrolho. Visões como essa ensejam aquelas reftexões padrão sobre a loucura: sua fronteira tênue com a sanidade; o questionamento do que esta vem a ser; a degradação causada pela alteração profunda e patológica da consciência; essas coisas. Ainda mais em mentes moldadas com os conteúdos, o deslumbramento e a vaidade atuantes na mente de quem, como ela, era a primeira pessoa da família a fazer um curso superior.

Tinha acabado de entrar no curso de Letras, licenciatura. Era evangélica e, quando passara no SiSU, recebera de alguns irmãos mais experientes as felicitações devidas por quem passasse por processo seletivo tão complicado. mas não sem algumas advertências (muito lembradas quando o destinatário dos conselhos vai fazer curso de Humanas, Linguagens ou Artes, ressalte-se):

— Irmã Wedla, a sabedoria de Deus é loucura para os homens. Cuidado pra não virar a cabeça com as ideias tortas do povo do mundo.

— Na universidade tem muitos ateus, maconheiros, drogados. Não se deixe levar por eles. pelo discurso bonzinho: pelo contrário, traga-os pra Cristo.

— Quando eu era universitário, participei de um grupo Alfa e Ômega. Quando você tiver lá na Ufal, procure ver onde eles se reúnem. É massa!

Até então ela estava em lua de mel com o ensino superior. E o discurso politizado dos militantes não batia mujto com a cabeça dela, suas aspirações, o que ela queria para o mundo. Às vezes ela achava que o povo lá se levava a sério demais. Mas tambérn, como não se levar a sério quando a exploração capitalista causa a fome da África e a miséria da favela Sururu de Capote?

Mas ela desviou o olhar e percebeu, mais adiante, na calçada do Sopão, um rapaz sentado num banquinho. Magro, de óculos, jeito excêntrico, e bem magro! Estava sentado num banco olhando o horizonte da lagoa que se via através do mirante do outro lado da pista. Ela tinha chegado ao ponto havia meia hora (sim, toda aquela meia hora e ela esperando o bendito do Ufal-Ponta Verde) e, desde então, nem tinha saído de lá nem falado uma só palavra. Apenas fitava a lagoa. Esticou o pescoço pra ver se conseguia ler a frase da camiseta. Não conseguiu. A curiosidade a fez aproximar-se, fingindo que compraria alguma coisa no carrinho de ambulante que ficava a meio caminho dos dois. Ao ouvir passos, ele abandonou a contemplação, olhou a moça e disse:

— Você deve estar se perguntando por que eu estou aqui fazendo esse papel de palhaço.

No que ele se virou, ela pôde ver que estava escrito algo como #NÃOÀSOPA. Perguntou:

— Não à SOPA? Eita! O sopão daí tá dando sopa podre pros pobres, é isso?

— Huaehuah! Não, não. O nome é realmente parecido. E tentei me aproveitar um pouco disso pra poder fazer meu protesto. SOPA é uma lei americana que pretende bloquear a veiculação de qualquer conteúdo que possua direito autoral, podendo devassar alguns aspectos da privacidade de usuários considerados suspeitos de pirataria.

— Eita!

— E desse jeito, YouTube, Wikipédia e Google (talvez Facebook) ficam inviáveis, pois todos estes sites seguem as leis de lá. Aí estou aqui, com meu silêncio e meu desplugamento da internet por hoje, manifestando minha indignação.

— Mas o que você pretende com isso aí?

Então Wedla ouviu urna voz gritando: “Ei, menina, vai se atrasar, é?”. Olhou pra trás e era sua colega Anna Karla, falando da janela do 711, que chegara após longa espera. Antes que o rapaz pudesse responder, ela virou pra trás e correu atrás da condução.

E ele voltou a olhar a lagoa Mundaú.